quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

AO TIO ZECA UM PREITO DE SAUDADES


Hoje eu estive pensando, longo tempo, sem chorar e sem sofrer também, apesar de pensar em você. O meu sentimento mais perceptível era de agradecimento, de poder ter tido você como Tio.
Desde a mais tenra infância, suas lembranças foram ficando entranhadas na minha memória como marcas indeléveis.
A primeira lembrança, ainda talvez aos três anos, é de visitar semanalmente as Lojas Americanas e comprar um brinquedo, religiosamente, qualquer brinquedo, aquele que eu escolhesse. Logo depois, a recordação mais forte, é da Ilha do Governador onde o seu apartamento, com janelas amplas e vista para Avenida, também ficava quase em frente à Rua Haia, onde morei. Ficava sempre no seu apartamento e, uma das visitas que você mais recebia, pelo menos que eu me lembre do também saudoso Teófilo, que invariavelmente me levava à janela, me mostrava alguém que passava numa pinguela do morro e dizia com uma voz de espanto: -"Aquele é o Orozimbo, cuidado com ele . . . . . “ O Orozimbo foi o meu primeiro fantasma.
Depois, minhas lembranças me levam de volta a São Cristóvão, em algum instante, além das recordações das festas juninas de rua, dos nossos almoços de domingo, de duas coisas que você as vezes mostrava, mas não deixava as crianças chegarem perto : O revolver com cabo de madrepérola e o trem elétrico. Algumas recordações são específicas e me lembro perfeitamente de uma conversa que durante algum tempo dominou as preocupações da casa. Você, Papai e Alberto, queriam investir em postos de gasolina. . . . . Naquela época de carros beberrões de 6 e 8 cilindros, devia ser uma boa, e a preocupação ficava por conta dos constantes assaltos, inclusive com mortes, que esses estabelecimentos sofriam. Trabalhavam 24 horas e a segurança era precária. As tratativas estavam em curso, quando me lembro que numa noite, ou num início de madrugada, chegou pela espiral do telefone à notícia de que o Alberto tinha tido um enfarte e tinha falecido.
Outra recordação é da Leiteria, quantas TOTA TOLAS .
Mais uma marcante, foi o dia que o seu carro foi furtado na porta da casa em São Cristóvão. Você chamou papai pela manhã e, me recordo, ele chegava sempre por volta da meia-noite, disse que quando chegou seu carro estava no lugar. Sempre com a sua característica de demonstrar que não esquentava a cabeça, mas reclamando da injustiça de ter sido você, e do carro que era zero, saiu e foi reclamar na rua, com quem poderia saber de alguma coisa, o furto do carro. Prontamente o então manda chuva do local vaticinava “ – Calma Zequinha, nós vamos achar o seu carro” . E acharam, se ainda me lembro, numa rua do Catumbi.
Nossa cumplicidade era tanta, que eu me orgulho de além de seu sobrinho, ser seu compadre. Fique tranqüilo eu olho pelo Nando.
Uma lembrança quase triste aconteceu nos idos de 77, pouco antes ou pouco depois, você trabalhava como comprador de piaçava e viajava com freqüência para o interior da Bahia para comprar produto. Numa dessas aventuras, houve uma enchente e como naquela época até interurbano era difícil, você ficou um grande período sem mandar notícias, nós já morávamos em Campos e tenho viva a lembrança das conversas de papai temendo pelo pior. O legal, é que quando você apareceu foi uma FESTA.
Eu ia crescendo, e você sempre se revelava o Tio presente, participativo e sempre antenado com a juventude.
Quantas festas juninas naquela época de MOBRAL, quantas saídas, quantas noitadas, quantas aulas censuradas e inconfessáveis, que saudades....... . . . . .
Importante lembrar, você foi o primeiro AUTODIDATA que eu conheci, lia vorazmente, sobre o que lhe caía na mão e ensinou a todos nós um hábito extremamente salutar, ler o JORNAL DO BRASIL. Quando o jornal mudou de layout, você não gostou muito, mesmo porque a linha editorial já não era a mesma e foi abandonando aos poucos.
Vovó Maria, Tia Tina . . . . As pessoas foram passando e vida ficando mais atribulada, e, embora às vezes os contatos ficassem raros, sempre eram carinhosos e os reencontros extremamente felizes.
Papai e você eram os homens que, independente de lugar, onde eu os encontrasse, beijava-os incondicionalmente.
Até a última vez, em agosto, que você desceu comigo para me mostrar onde era um banco e foi buscar uns exames, encontrar você sempre foi uma festa.
Agora, você é saudade.
Para finalizar, como às vezes você tinha reservas quanto a ir à igreja, numa dessas ocasiões em que isso era inevitável, acho que foi a 1ª Comunhão do Zé Guilherme, você para deixar a vovó brava, disse que iria se confessar e que era muito simples, entraria no confessionário e diria ao padre: - “Padre, eu pequei contra os 10 mandamentos e mais as entrelinhas”
O poeta Mario Quintana, em uma passagem do poema VIDA, nos dá a dimensão exata do pouco tempo que dispomos:
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, passaram-se 50 anos!
Dogmas sempre foram coisas complicadas, mas agora, nesse instante, eu acredito que todos aqueles que nos são caros, estão te recebendo em festa e cheios de papo para colocar em dia. DESCANSE EM PAZ. OLHE POR NÓS, NOS PROTEJA E NOS GUARDE.

Um comentário:

Anônimo disse...

Obrigado, Mário, por todos os seus sentimentos em relação ao meu pai, e obrigado por colocar isso em palavras. Ele sempre te amou como um filho e por isso te tenho como um irmão mais velho (que me ensinou, inclusive, na porrada, a dar porrada nos irmãos mais novos). Tenho pena de não estar mais perto de ti e de participar mais na sua vida, mas todo mundo reclama do mesmo, né? Sua sobrinha, Luana, fez questão de ler sozinha e se divertiu à brava. Só mais uma coisa: Zé Guilherme é o cacete, pô! Basta Guilherme, pq José é indicativo.
Grande abraço.